O Porsche 911 que não vai existir

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Esta semana os fãs de Porsche 911 ficaram apreensivos com a notícia de que talvez o 991 GT2 não exista.

Como tudo na vida, todas as coisas têm seu lado positivo e negativo. O desenvolvimento dos carros, sobretudo os esportivos, está passando por uma situação dessas. Não preciso ficar citando aqui o porquê dos carros estarem cada vez maiores e mais pesados, no entanto, mais potentes, seguros e eficientes. O que vemos basicamente é o seguinte: cria-se uma tecnologia X que é boa para alguma coisa no carro, mas piora outra. Com o tempo a tecnologia é aprimorada, por vezes necessitando complicá-la ainda mais. Resumindo, os carros vão se complicando para resolver problemas que não precisavam ter, pra começo de conversa. Isto vale para a direção com assistência elétrica, para o câmbio automatizado, para praticamente qualquer tecnologia. Naturalmente, a complicação só é percebida por nós, entusiastas por carros, que temos experiência com carros de gerações anteriores e gostaríamos que os modelos atuais evocassem aquele prazer “puro” ao dirigir. Mas eu estou divagando…

Voltando para o mundo 911, o GT2 foi criado para um propósito nobre: ser um 911 Turbo apto para competir nos campeonatos GT da época, especialmente o BPR e futuro FIA GT. Um dos empecilhos do regulamento eram as sanções à tração integral (coisa que o 993 Turbo possuía) e a necessidade de homologação dos carros com no mínimo 25 exemplares de rua. E no final de 1994 apareceu o 993 GT2 bonitão nas paradas para que no ano seguinte já pudesse competir de acordo com o regulamento. Existem hoje relatados 57 unidades de 993 GT2s de rua, ou seja, são extremamente raros e por isso muito valorizados. Você não o compra no leilão por menos de 250 mil euros hoje. E leva para casa o quê? Um 993 Turbo mais agressivo no visual, mais potente, 200 kg a menos de peso e, obviamente, com o tempero à moda Turbo antiga: tração traseira.

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Com a vinda da geração 996, a linha 911 ficou mais organizada um pouco e tivemos o surgimento do “trio especial”: Turbo, GT3 e GT2. Neste cenário, o GT2 surgiu como um carro de nicho, e não para fins de homologação como vimos no 993. Vamos resumir assim, o 996 GT2 era bom em duas coisas: sair de traseira e apavorar corretores de seguro de automóvel. Não é à toa que recebia o apelido carinhoso de “fazedor-de-viúvas”. Já na geração 997, o carro veio ainda mais focado neste nicho à moda antiga, de pilotagem agressiva. O GT2 Mk1 para mim é o mais bonito de todos os modelos da geração 997. E no segundo tempo do jogo, a Porsche fez o seu The Ultimate 911 sob a forma do GT2 RS. Coloque este ingredientes numa panela: 620 cv, 70 kgfm, 1370 kg, câmbio mecânico e tração traseira. Este é o carro que separa os homens das crianças, Sr. 911 Turbo PDK.

Vamos ficar aqui no GT2 RS mais um pouco. Vou contar algumas coisas sobre ele. Primeiro, o carro num dinamômetro acusa 580 rwhp. Sendo bastante conservador, ele gera mais de 650 cv. Há preparações em cima do carro que já ultrapassaram 720 cv. O motor aguenta paulada. Por que aguenta? Porque é um motor de corrida da Porsche, chamado Mezger. Segundo, dizem que o carro faz 7:18 em Nordschleife. Nunca vi um vídeo documentando. Eu apostaria as minhas fichas que faz até menos do que isto, pensando na destruição que é este carro nas mãos de quem sabe pilotar de verdade. Mas isto não interessa tanto assim. O que quero dizer é que poderia fazer até 7:30 nas mãos de um amador, mas somente o fato de ser mecânico, leve e com a tração no lugar certo me faz querer guiá-lo mais do que um todo-poderoso 991 Turbo S.

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Chegamos a este assassino. Não como o 996 GT2 que matava o motorista, mas de irmãos de sangue. O 991 Turbo S vai matar a dinastia 911 GT2. Sabe por quê? ” (…) os carros vão se complicando para resolver problemas que não precisavam ter, pra começo de conversa.” Se lembra de eu ter dito isto? Pois bem, eu omiti um fato a você. Quando a Porsche lançou o facelift do 911 Turbo em 2010, o conhecido “Turbo PDK”, ela jogou fora o motor Mezger que havia no antecessor e colocou o “3.8 injeção direta” (9A1 DFI) do 911 Carrera S. Vou explicar de novo o que aconteceu. O 911 Turbo perdeu um motor de corrida, que aguentava preparação pesada e o dobro da potência que vinha para as ruas, em detrimento de um motor projetado para ser de “uso urbano”. Dizem que o Turbo S PDK gera 60% a mais do que o trem-de-força de fato suporta. Não é à toa que não existe 911 Turbo PDK com 1000 cv. Aliás, nem 700 cv. Aqui vão me apunhalar e dizer que não precisa mais do que aquilo, ou que “cavalo-Porsche vale mais”.

Eu concordo com você em partes. Sim, um controle de largada de 911 Turbo S é trazer a adrenalina de uma montanha-russa para dentro da sua garagem. Já experimentei e viciei, como qualquer um viciaria. Não, cavalo-Porsche não vale mais. Te digo que 500 cv exatos um 997 Turbo PDK realmente não tem, mas 600 cv também não. Acima de 200 km/h ele começa a perder sua força. A matemática é bem complexa pra culpar apenas a potência e se esquecer do escalonamento das marchas, do peso, da tração integral e de diversos outros fatores. Só quero deixar claro que se não fossem as exigências mercadológicas de eficiência e economia, o motor Mezger continuaria no cofre do 911 e não teríamos que nos contentar com 991 Turbo S stock, já que “chipadinha” nele vai ser difícil. Entenda, é uma complicação que não precisava existir.

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Além da questão do motor, o nosso 991 Turbo S veio com um recorde na pista curta de Sachsenring. É o carro de produção mais rápido que já testaram lá, superando inclusive o 997 GT2 RS (guiado pelo Walter Röhrl), a SLS Black Series e o R8 V10 plus. O esportivo alemão mais rápido ali é o Turbo S novo. Yippee-Ki-Yay! É o esterçamento das rodas traseiras! É o câmbio PDK! É a tração integral com PTV! São os freios de carbono-cerâmica PCCB! É o chassi com ajustes antirrolamento PDCC! São os ajustes do Sport Plus! Queria ver se uma “chipadinha” nesse GT2 RS não recuperasse a posição perdida. E em Nordschleife? Será que o 991 Turbo S vai fazer menos de 7:20? Percebe aonde quero chegar?

Vejamos o que o Herr Achleitner, o cabeça do programa 911, disse para a Car and Driver semana passada:

 “Right now all I can say is that a decision has not been made (…) There are reasons inside the company, and to write today that there will be a GT2 in the future would not be correct (…) If you take a look at today’s Turbo S and the performance this car produces… You cut away the front-wheel drive for the GT2, but the car loses traction.”

Realmente, não havia pensado por este prisma. Corta a tração integral e o carro perde tração. Perde o que vende 911 Turbo PDK no Brasil e no mundo. A arrancadinha de semáforo. Só que não se esqueça, Herr Achleitner, que o 911 Turbo é um supercarro para o dia-a-dia, então aceitamos que ele tenha apenas este truque na manga (palavras do Chris Harris, vá brigar com ele). Aceitamos que ele não seja o ideal para se colocar num autódromo. Aceitamos que o motor de padaria não aguente murro de preparação. Aceitamos que ele não seja um carro exatamente passional. É o verdadeiro arroz com feijão. Aquele pra qualquer hora, que não é nem um bife Prime Rib “ao ponto” nem uma batata Pringles, se é que me entende. Talvez por isto vejamos os fissurados por autódromo procurando GT-Rs, Corvettes, Vipers e GT2s. Opa, GT2 não porque o carro não tem tração.

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Eu quero parar de culpar o 991 Turbo S por tudo. Ele é um 997 Turbo PDK melhor em pista e mais emocional um pouco, dizem os especialistas que já puderam guiá-lo. É o melhor carro de arrancada do mundo. Só que não, a McLaren 12C (um carro sem tração) o espancou de ré. E aquela geladeira nipônica cravou 7:08 em Nordschleife. Só que isto não é tarefa para o Turbo S, mas para sua versão de pista, o GT2. Espera um pouco… O GT2 não vem, é função sim do Turbo S agora, porque ele tem tração. A culpa é da Porsche por seguir o fluxo. Matou o Mezger, matou o câmbio mecânico, matou a direção sem assistência elétrica. Pra que existir GT2 mesmo? Teriam algum chip milagroso pra tirar 600 cv do motor novo? Compensaria perder 200 kg e não conseguir fazer 0-100 km/h abaixo de 3,0 s? Quem quer um esportivo passional compra o GT3 mesmo… Pra que existir GT2? Eu faço a mesma pergunta 10 anos atrás quando o 996 GT2 surgiu. Quem matou a “amante” (991 GT2) foi a Porsche. E querem culpar a “esposinha” (991 Turbo S). Percebem? Pelo menos o “velório” (997 GT2 RS) foi um show que quero comprar um dos 500 ingressos no futuro.

Quem quer um esportivo puro compra o GT3, não é mesmo? Ele é igual aos modelos de competição da marca. Só que não, pois eles não têm motor 9A1 e câmbio PDK. É mais ainda um 911 Carrera S de pista. Mas este eu vou engolir e ficar calado, pois fazia tempo que não via um carro tão fantástico, apesar dos pesares. Talvez por isto o modelo visto sendo testado em Nordschleife um tempo atrás e que será apresentado no Salão de Genebra este ano não seja o abortado GT2, mas um GT3 RS. Falando em esportivo, ainda existe o tal supercarro com motor central-traseiro que a Porsche fará para competir com Ferrari, McLaren e Lamborghini. Deveriam ter culpado este pela morte do GT2, pois segundo meus cálculos da Nasa eles estariam no mesmo nicho de mercado, e não o coitado do 911 Turbo S, que acabou de se recuperar da briga contra o Japão.

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